Acrofobia: por que algumas pessoas têm sensação de pânico em lugares altos?

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Podemos dizer que o medo é uma resposta vital para situações de perigo iminente. Um indivíduo tende a despertar esse sentimento quando ele se encontra em uma situação de perigo que o afetaria fisicamente ou emocionalmente. A acrofobia, por exemplo, é um medo que provoca sensações de pânico em pessoas quando colocadas em lugares altos.

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A acrofobia é o pânico a altura | Felipe Reis

Acrofobia x medo de altura

No entanto, apesar da acrofobia atingir pessoas que têm medo de altura, é importante diferenciar esses dois sentimentos.

Isso porque, é comum que algumas pessoas sintam medo, em determinado nível, de locais altos, especialmente quando não há proteção. Contudo, esse receio não se assemelha ao medo extremo que alguns indivíduos sofrem em locais altos.

“A acrofobia é um dos tipos de fobia, ou seja, um transtorno de ansiedade causado pelo medo excessivo e irracional de lugares altos. É necessário discriminar o medo realístico que é essencial para a sobrevivência, do medo irracional. O medo irracional é desproporcional ao risco real. A pessoa pode evitar andar sobre pontes, beiradas ou ser incapaz de subir acima dos primeiros andares de um prédio. O fóbico sente-se ameaçado e desenvolve inúmeros sintomas físicos diante da situação temida, como sudorese, taquicardia e aumento do tônus muscular”, relata a psicóloga clínica e pesquisadora do Laboratório de Saúde Mental e Psicologia Clínica Social do Instituto de Psicologia da USP, Laura Carmilo Granado.

Em alguns casos, uma pessoa com acrofobia pode ter ataque de pânico e ficar extremamente agitada até encontrar um local no qual consiga se sentir segura novamente.

“A origem pode se dar por um evento traumático, que em geral é desencadeado por alguma vivência ruim, quando na fase de primeira infância em que se cria um bloqueio mental. Neste transtorno, um indivíduo se sente incomodado ao subir em lugares de altura elevada”, explica a psicóloga Andressa Azambuja.

Segundo a psicóloga, é bastante comum que se confunda esse medo com o estado de vertigem que experimentamos eventualmente, mas, neste caso, há alterações orgânicas nas camadas internas do canal auditivo, causando desequilíbrio e tontura, e que independe de altura para se manifestar. Porém, na acrofobia, há uma relação direta entre a ideia de estar em lugares altos e os sintomas.

“Em análise mais ampliada, o sentimento de medo pode ter relação com a mensagem que a altura envia para a mente do indivíduo. Pois lugares altos nos causa a percepção da imensidão do universo, ou seja, a mensagem que existe muitas possibilidades na vida e questionamentos existenciais do tipo ‘Será que dou conta de tudo isso?’. Isso aciona mecanismos inconscientes de dúvidas existenciais que podem gerar insegurança, ansiedade e pavor”, completa Andressa.

Adrenalina e fobia lado a lado

No entanto, em paralelo ao pânico despertado em algumas pessoas, existem aqueles que são movidos pela sensação de adrenalina. A linha entre a sensação de emoção extrema e a fobia é tênue.

“A prática do esporte radical, como os executados nas alturas, por exemplo, possibilita a liberação de hormônios como adrenalina, secretada em momentos em que o corpo está em uma situação de perigo e precisa agir de alguma forma, acionando estímulos de ‘luta ou fuga’ e provocando mudanças imediatas de alerta no corpo, como pupila dilatada, músculos tensionados, coração acelerado, entre outras”, comenta a psicóloga Beatriz Marsiglia.

Para a psicóloga, no entanto, é importante salientar que cada ser humano é um indivíduo, com história, anseios e limites a serem respeitados. “Para algumas pessoas, tal sensação é um atrativo e as motiva para cada vez mais procurarem essa prática. Geralmente, essas pessoas têm uma personalidade mais competitiva e mais propícias a desafios, em detrimento de outras que experienciam essa mesma situação como algo adverso e muito intenso para elas. Por esse motivo falamos em “limite individual”.

Por que ter medo?

Contudo, se analisarmos friamente determinadas situações do nosso dia a dia, é certo dizer que esse pânico não deveria se fazer presente. No caso de uma pessoa que tem medo de altura, por exemplo, andar de avião pode ser uma verdadeira tortura – mesmo sabendo que este é um dos meios de transporte mais seguros do mundo e um acidente de carro é mais passível de acontecer.

Levando isso em consideração, afinal, por que temos medo? “A pessoa pode ter uma sensação de pânico ao perceber que está em um lugar alto e pode sentir-se incapaz de confiar no próprio sentido de equilíbrio. O sujeito pode ter sentimento de que “perdeu o chão”, está desamparado, não tem uma base sólida, perdeu os próprios contornos e isso tem relação com aspectos de seu psiquismo, com sua história de vida, com a história de suas relações familiares e com sua constituição psíquica”, detalha Laura.

Para Andressa, devemos seguir a linha de raciocínio que o indivíduo é fruto do que vivencia em sua trajetória, então depende de sua formação de personalidade, da estrutura emocional construída e da complexidade de sua história pregressa como um “ser”, para compreender a origem de tal sentimento de medo relacionado à altura, por exemplo.

“Acredito ser frequente a ideia de finitude, ‘medo de morrer’, em níveis mais profundos da consciência humana. Penso que pode ser um ‘pavor’ da responsabilidade do ‘existir’ e das infinitas possibilidades de escolha, sendo que a cada uma escolhida é necessário responsabilização”, opina Andressa.

Semelhante opinião tem Beatriz. Para a psicóloga, as pessoas que desenvolvem acrofobia possuem um medo com intensidade irracional, ou seja, estes têm medo de perder o controle diante de situações ansiogênicas. “O medo maior da pessoa é a perda do controle, podendo ser traduzido também como ‘medo da incerteza’ ou ‘medo do imprevisível’. O que para os adeptos da prática soa como ‘desafio’, para os que não se identificam com a prática soa como algo penoso.”

Como tratar a acrofobia

Como citado anteriormente, o medo de altura pode ser uma sensação recorrente na vida de muitas pessoas. No entanto, a acrofobia, precisa ser analisada como um outro olhar e necessita de ajuda especializada.

“Há várias abordagens e inclusive pode ser necessário a intervenção medicamentosa. A psicanálise vai trabalhar desvendando os elementos psíquicos que estão por trás do medo. A pessoa pode, inclusive, aos poucos ir se expondo ao medo. O fortalecimento do eu, a solidificação do mundo interno, os contornos do eu vão se constituindo de modo que o sentimento de insegurança básico vai ficando para trás”, informa Laura.

Assim também pensa Beatriz. “O que deve ser salientado é que todo tratamento, seja psicoterapêutico ou medicamentoso, deve ser considerado de acordo com a frequência em que aquele indivíduo vai se deparar com o objeto causador de sua fobia e o quanto isso pode afetar a sua qualidade de vida.”

“Se a pessoa apresenta tais sintomas, mas vive em um ambiente em que não será exposto à altura com uma frequência maior, deve-se dosar se há a devida necessidade de procurar um tratamento para algo em que é esporádico. Já em casos em que o indivíduo se submete com frequência a lugares altos, afetando suas tarefas cotidianas e sua vida como um todo, aí sim é hora de procurar uma ajuda especializada”, conclui Beatriz.

Nesse caso, a busca por um profissional é fundamental. O acompanhamento contínuo é o primeiro passo para combater os medos e as inseguranças presentes no cotidiano.

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