Projeto “Mulheres Invisíveis” busca combater a pobreza menstrual em Campinas

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Atualmente, no Brasil, cerca 713 mil meninas vivem sem acesso a banheiro ou chuveiro em seu domicílio e mais de 4 milhões não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas, segundo um relatório divulgado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), em maio de 2021. Esse problema, no entanto, tem nome: pobreza menstrual.

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Pobreza menstrual

Segundo o Unicef, a pobreza menstrual é a falta de acesso a recursos e produtos de higiene, infraestrutura e conhecimentos por parte das pessoas que menstruam. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), o direito à higiene menstrual deve ser reconhecido como uma questão de direitos humanos e de saúde pública.

Tendo esses e outros números em mãos e pensando em mudar essa situação que surgiu o projeto “Mulheres Invisíveis”, em setembro de 2019, na Escola Estadual Culto à Ciência, em Campinas – São Paulo, na disciplina eletiva de iniciação científica coordenada pelas professoras e orientadoras Aloísia Moretto e Claudia Caniati.

A questão foi levada até as professoras e dentro de uma sala de aula iniciou-se o projeto com o objetivo de combater a pobreza menstrual instalada na vida das mulheres em condição de rua. O grupo tem como finalidade arrecadar e distribuir para esse público alvo produtos de higiene menstrual.

Quer conferir mais sobre o projeto? Leia o artigo produzido pelo grupo a seguir:

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Projeto para combater a pobreza menstrual foi desenvolvido em um escola de Campinas, São Paulo | Divulgação

“Mulheres Invisíveis”

*Por Yandra Ribeiro, Larissa Oliveira e Luana Barbosa
*Coordenado por Aloísia Moretto e Claudia Caniati

O projeto “Mulheres Invisíveis” foi iniciado em setembro de 2019 na Escola Estadual Culto à Ciência, em Campinas – São Paulo, na disciplina eletiva de iniciação científica coordenada pelas professoras e orientadoras do projeto: Aloísia Moretto e Claudia Caniati.

A questão problema do projeto social consiste na falta de acessibilidade a produtos de higiene menstrual para mulheres em condição de rua, na cidade de Campinas, onde grande parte destas usam restos de alimentos e trapos velhos como única opção de conter a menstruação, da qual consequentemente ocasiona problemas de saúde, sejam eles psíquicos ou físicos. No Brasil, absorventes higiênicos ainda são considerados itens de luxo e não de necessidade básica – reafirmando que a desigualdade de gênero e classe ainda é muito presente aqui -, portanto, não são distribuídos gratuitamente em pólos de saúde tais como os preservativos. Embora questões de saúde pública, artigos de higiene menstrual ainda não chegam às mulheres de baixa renda e em condições precárias de vida e/ou moradia.

A questão perturbadora foi levada até as professoras coordenadoras da disciplina eletiva de iniciação científica, Aloísia e Cláudia. E dentro de uma sala de aula, iniciou-se o Mulheres Invisíveis, com o objetivo de combater a pobreza menstrual instalada na vida das mulheres em condição de rua e lutar pelos seus direitos. Assim, produtos de higiene menstrual são arrecadados e distribuídos para esse público alvo na cidade de origem do projeto. Além disso, o envolvimento no âmbito político e social da questão problema é uma parte significativa do desenvolvimento do Mulheres Invisíveis, tendo como meta a elaboração de um projeto de lei que permita a distribuição gratuita de produtos básicos de higiene menstrual em Campinas.

Obviamente, a construção da temática ainda não era suficiente para o desenvolvimento de um bom projeto; precisava-se mais do que apenas embasamento teórico. E assim, o
¹Consultório na Rua se tornou parte essencial do projeto. Duas entrevistas foram feitas separadamente, podendo então, desfrutar do conhecimento e experiência de cada atuante do trabalho. Por meio deles, alcançou-se uma líder do movimento da população de rua, especificamente em prol das mulheres, que se encontrava em situação de moradia precária e ex-moradora de rua. Com ela, também foi realizada uma entrevista e até hoje não se perdeu o contato. Então, com essas informações e vivências proveitosas, começou a principal parte do projeto: a mobilização.
¹Consultório na Rua é uma modalidade de serviço de atenção primária à saúde, no âmbito da Estratégia Saúde da Família, oferecida pelo Sistema Único de Saúde para as populações em situação de rua.

Arrecadações e distribuições foram feitas ao longo do ano caótico de 2020 e início de 2021. Cada detalhe e informação foi documentada através do Instagram @m.invisiveis. E seguem em vigor até os dias atuais.

Os maiores desafios se caracterizam pela falta de apoio de representantes públicos diante da questão problema – as mulheres em situação de rua sem acesso a esses produtos de higiene menstrual e aos seus direitos -, onde não há iniciativa governamental alguma que possa suprir tais necessidades. Três meninas estudantes do Ensino Médio iniciaram um movimento em que o poder público deveria estar fazendo. Fora isso, conseguir entrevistas com mais mulheres em vivência de rua também foi e tem sido um grande desafio devido à pandemia. E definitivamente, tentar entender o contexto em que estas mulheres vivem, compreender as suas dores e queixas ainda é uma desconstrução e desafio diário.

Todavia, as descobertas sobressaem as dificuldades. Ser retirada da sua zona de conforto nunca é fácil, mas é um bom começo para expandir a sua concepção de mundo. Poderia-se dizer que não foi nada descoberto, apenas de fato enxergado. Adquirir um olhar sensível e empático com essas mulheres, por conta das circunstâncias em que vivem, é algo que não havia sido experienciado antes do projeto, conhecer trabalhos e pessoas do mesmo ramo que são igualmente extraordinárias também é uma nova experiência. Poder fazer parte de uma mudança maior que você, é sempre a melhor parte.

Na sua sexta participação em feiras de divulgação de projetos científicos, o projeto ficou em 3° lugar na categoria de Ciências Sociais Aplicadas da 19a FEBRACE 2021. E foi uma grande honra receber esse reconhecimento de uma Feira tão renomada. Apesar do nervosismo, os avaliadores tornaram a experiência confortável e fluída, as sugestões e elogios foram aceitas com muita gratidão. Diversos projetos incríveis foram apresentados, e o aprendizado será eternamente lembrado com muito carinho.

O mundo científico tem diversas áreas, todo mundo se encontra e se apaixona por alguma. O caso do Mulheres Invisíveis foi a ciência social, qual é o seu? Se deseja ir para a frente com o seu projeto, há apenas uma coisa que pode te levar lá: coragem. Vale a pena. Feiras de ciências parecem bichos de sete cabeças, mas são fundamentais para aqueles que almejam o crescimento e reconhecimento no meio científico. Dá medo? Com certeza. No fim, é a melhor escolha. Criar e desenvolver um projeto é difícil, porém, mantê-lo com a mesma motivação do início é mais difícil ainda. Nunca desista. Seja sempre constante. E quando chegar no que chama de topo, lembre o porquê
– e por quem – começou.

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No Brasil, absorventes higiênicos ainda são considerados itens de luxo e não de necessidade básica | Divulgação

*A divulgação desse artigo na íntegra é uma parceria entre o Manual do Mundo e a FEBRACE (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia). Nós convidamos os ganhadores da feira para escrever artigos sobre os projetos que eles desenvolveram. Você pode conferir outros textos como esse aqui.*

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