Cores e sentidos: projeto proporciona inclusão de pessoas com deficiência visual

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Das 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual no Brasil, cerca de 528.624 são incapazes de enxergar e 6.056.654 possuem baixa visão ou visão subnormal, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)m de 2010.

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Pessoas com deficiência visual

Levando esses números em consideração e sabendo dos direitos de todos os cidadãos, que uma estudante de Santa Bárbara d’Oeste, em São Paulo, resolveu desenvolver o projeto intitulado “PACOR: o mundo colorido não visto.”

No projeto, Maytê Braz de Andrade Mello, buscou proporcionar às pessoas com deficiência visual a percepção das cores por meio de outros sentidos. Para isso, foi feita uma pesquisa sobre o sentido e a simbologia das cores e a partir daí foi criada a PACOR, uma paleta de tintas com um sistema tecnológico.

Nela, as tintas possuem cheiro, um manual em braile e uma audiodescrição, permitindo que pessoas com deficiência visual possam desenvolver suas próprias interpretações das cores e do mundo.

Quer conferir mais sobre o projeto? Leia o artigo produzido pelo grupo a seguir:

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Projeto busca auxiliar a aprendizado e percepção de pessoas com deficiência visual | Divulgação

“PACOR: o mundo colorido não visto”

*Por Maytê Braz de Andrade Mello
*Coordenado por Érica Fátima Inácio

Partindo da premissa que a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão é considerada um marco na busca da igualdade entre todos, já que tem como foco a não pré-classificação por nascimento, mas sim em assegurar a todo e qualquer ser humano, não importando a classe social, raça, nacionalidade, religião, cultura, profissão, gênero, orientação sexual ou qualquer outra variante possível que possa diferenciar os seres humanos, a proposta de trabalho nas aulas de Eixo Integrador para a turma do 8ºano do Ensino Fundamental nasceu com a demonstração de como conceitos de raça e de gênero já foram taxados como “científicos” e serviram para disseminar o preconceito e a predeterminação dos indivíduos em nossa sociedade.

O estudo e a reflexão sobre os preconceitos visaram contribuir para a promoção do respeito à diversidade e à pluralidade. Neste momento surgiu a ideia de fazer um movimento com os estudantes que os auxiliassem a analisar o mundo além do conceito visual, além das aparências, numa compressão que o “essencial é invisível aos olhos”. Seguindo o pensamento da citação de Saint-Exupéry, o essencial é tudo aquilo que não pode ser tocado e sim sentido, como o amor, a amizade, a gratidão, a esperança, o caráter, a alegria. Mobilizados pelo tema proposto, novos questionamentos surgiram na sala de aula, entre eles destacam-se: “O que é visível e invisível em nosso dia a dia?” “Como os olhos funcionam?” “Como a pessoa cega “vê” o mundo?”

As respostas foram surgindo através de investigações e pesquisas planejadas juntamente com os estudantes. Criar um caleidoscópio e entender a formação de imagens em uma associação de espelhos planos e o funcionamento dos olhos para formular uma imagem foi um momento marcante. Trazer a experiência de vida de uma criança cega congênita, numa roda de conversa, compartilhando como era sua integração com o mundo foi essencial para motivar os alunos para um estudo mais aprofundado do tema proposto.

Das 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual no Brasil, cerca de 528.624 são incapazes de enxergar
Das 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual no Brasil, cerca de 528.624 são incapazes de enxergar | Divulgação

E como o papel da escola é o de problematizar fatos sociais, mostrando suas raízes, buscando formas de desenvolver valores de uma sociedade aberta e democrática e o da ciência em auxiliar na construção do conhecimento, através da cultura científica, que possibilitará ao estudante ver e compreender o mundo com maior criticidade e com conhecimentos para discernir, julgar e fazer escolhas conscientes em seu cotidiano, com vistas a uma melhor qualidade de vida, solucionando problemas, os jovens alunos dedicaram-se em buscar soluções para problemas identificados no convívio da pessoa cega com o mundo que o cerca.

A partir daqui identificar um problema e apresentar uma solução por meio de uma ideia inovadora foi um critério apresentado a toda turma.

Como a proposta da disciplina de Eixo Integrador da REDE SESI é a de integrar diversas áreas do conhecimento, estimulando a reflexão e a criatividade dos alunos através da investigação, as pesquisas foram ganhando força e os debates acerca da deficiência visual foi o tema de trabalho da turma do 8ºano. Estabelecer parcerias com outros profissionais da escola também é fundamental. O professor orientador de projetos e alunos não trabalham isolados, como numa ilha, mas sim integrados com a comunidade escolar e equipe de professores.

Foi o êxito no cumprimento desses critério de pesquisa e na eficiência do trabalho em equipe, que levou a estudante Maytê Braz de Andrade Mello, 13 anos, do SESI de Santa Bárbara d’Oeste, com o projeto intitulado “PACOR: o mundo colorido não visto.” a conquistar o prêmio “Meninas em STEM” (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) e ser contemplada com uma bolsa de iniciação científica júnior concedida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), como forma de incentivo à participação de meninas no desenvolvimento de projetos científicos Social e também conquistou o prêmio “Poli Cidadã de Tecnologia e Desenvolvimento”- menção honrosa, ambos na FEBRACE (Feira Brasileira de Ciência e Engenharia).

No projeto “PACOR, o mundo colorido não visto”, Maytê buscou proporcionar às pessoas cegas a percepção das cores por meio de outros sentidos. Para isso, foi feita uma pesquisa sobre o sentido e a simbologia das cores e a partir daí foi criada a PACOR, uma paleta de tintas com um sistema tecnológico. Nela, as tintas possuem cheiro, um manual em braile e uma audiodescrição, permitindo que crianças cegas possam desenvolver suas próprias interpretações das cores e do mundo.

Enquanto orientadora do projeto, ressalto que o maior desafio no ano de 2020 foi a mudança de modalidade presencial para o espaço virtual. Tinha agora que mediar projetos à distância, que antes os alunos eram estimulados a “pôr a mão” na massa e encontrar soluções criativas para seus problemas, contando com um direcionamento mais próximo aos olhos do professor, para o espaço online. Agradável surpresa foi a minha ao contar com uma plataforma de estudo, ferramentas que possibilitaram o desenvolvimento de projetos, a tecnologia streaming, articuladas a um planejamento pessoal.

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Projeto leva o nome “PACOR: o mundo colorido não visto” | Divulgação

Ao assumir a condição de tutora e instigadora da busca pelo conhecimento, uma vez que dialogar e testar possibilidades faz parte de qualquer construção, a escola online pôde sim, com as devidas adaptações, tornar-se um grande espaço “maker” ao associar o ensino à inovação, substituindo o obsoleto modelo da sala de aula tradicional.

A partir daqui abordamos temas estruturantes como a pesquisa no campo científico, a metodologia de trabalho por projetos e a abordagem STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics) no ensino das Ciências. Dessa forma, ao mesmo tempo em que foi desenvolvida a interdisciplinaridade, os estudantes tiveram a oportunidade de colocar em prática conhecimentos que, outrora, eram limitados ao papel e caneta.

Foi muito estimulante aos alunos a participação de eventos científicos e um deles é a FEBRACE. Os estudantes puderam aprimorar sua comunicação oral e escrita e realizar a pesquisa científica com maior motivação. Ficou claro que a Feira de Ciência foi um instrumento de valorização pessoal, social que pôde estimular uma cultura investigativa, criativa, inovadora e empreendedora na escola.

Para os jovens alunos que estão desenvolvendo pesquisa, buscando soluções inovadoras para problemas de sua comunidade, que sonham em transformar o mundo, reforço que a ciência não está tão longe da gente. Muitas vezes um dos primeiros obstáculos é o da invisibilidade. Se ninguém conhece um cientista, fora o que se vê na TV ou no cinema, fica difícil contemplar a possibilidade de uma carreira em ciências. Muitos jovens, quando imaginam um cientista, provavelmente pensam no programa de TV “The Big Bang Theory”, ou em uma foto do Einstein de língua de fora.

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Trabalho foi desenvolvido em uma escola em São Paulo | Divulgação

No entanto, o cientista está por perto e fazer ciência é mais que pesquisar; é investigar, é buscar soluções, testar, retificar e divulgar uma descoberta. É uma explicação possível de ser testada, racionalmente válida e justificável, que possa ser replicada, e obtida por meio de estudos, observações e experimentações feitas sobre a afirmação ou o objeto estudado.
Participar de uma Feira de Ciências como a FEBRACE é uma excelente experiência para o estudante aprender a observar ao seu redor, ouvir as pessoas, identificar problemas, entender que a ciência está em nosso dia a dia e que os conhecimentos vão além da teoria dos livros. Muitas vezes importar-se com o próximo é uma grande inspiração de aplicar a ciência.

Nesta perspectiva é importante entender que como a Maytê foi brilhante e aplicou a ciência na criação dela, dedicando tempo às investigações e à construção da ideia, outros exemplos de sucesso podem surgir. Ela fez e ainda faz ciência, descobriu um caminho cheio de oportunidades e desafios e pelo que tenho observado sendo a professora orientadora dela, a história da Maytê só está no começo.

Então fica o meu convite para você, futuro cientista: vamos fazer ciência?

*A divulgação desse artigo na íntegra é uma parceria entre o Manual do Mundo e a FEBRACE (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia). Nós convidamos os ganhadores da feira para escrever artigos sobre os projetos que eles desenvolveram. Você pode conferir outros textos como esse aqui.*

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